“A infância é uma máquina de espanto.
Já todos passámos por essa máquina, mas é bom que a conservemos.
E que essa disponibilidade para aprender, para ver, ouvir, perguntar, persista.
Vivemos com os olhos colados nos sapatos, e deixámos de abrir a janela, de olhar para as estrelas.
Desistimos de olhar mais para longe.
Aquilo que move a história não são os nossos sapatos, é um ponto que algures contemplamos mais longe.
Há uma história engraçada, oriental, que conta de um velhote que quer chegar ao cume de uma montanha.
Faz uma paragem numa estalagem do caminho e o estalajadeiro convence-o de que já não tem condições de chegar ao cume.
E ele diz: “Já atirei para lá o meu coração, e por isso sei que vou chegar”.
A coisa mais importante é atirarmos para longe o nosso coração.
Haveremos de chegar, com maior ou menor dificuldade, com maior ou menor lentidão.” –
José Tolentino Mendonça
